Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

11.5.07

Minghella volta a filmar seus roteiros


Diretor inglês conta por que decidiu rodar Invasão de Domicílio, história inspirada numa sucessão de roubos em seu escritório


Anthony Minghella não se arriscava a dirigir uma história própria desde Um Romance do Outro Mundo (1991), seu filme de estréia. 'Sucumbi várias vezes diante da tentação de traduzir obras literárias em imagens', disse o cineasta britânico de 53 anos, referindo-se às adaptações de O Paciente Inglês (1996) e O Talentoso Ripley (1999) e Cold Mountain (2003). Foi preciso uma série de roubos em seu escritório em Londres para o diretor esquecer os épicos e buscar inspiração na vida cotidiana, assinando o argumento e o roteiro de Invasão de Domicílio.

'Durante o ano em que filmei Cold Mountain na Romênia, fui avisado de 16 arrombamentos', contou Minghella, em entrevista concedida por telefone, de Nova York. Apesar do prejuízo, os incidentes acabaram ajudando o cineasta, por fazê-lo lembrar de antiga idéia para filme. 'Após Um Romance do Outro Mundo, pensei na história de um casal que, ao voltar de uma festa, descobre que a casa foi invadida. Só que eles não dão falta de nada. Pelo contrário. Percebem que objetos foram deixados lá. Coisas que indicam os problemas no casamento.'

O argumento, apesar de promissor, perdeu o enfoque estritamente amoroso e enveredou pelo social. Invasão de Domicílio é a história de um arquiteto (Jude Law) que, após sucessivos roubos em seu ateliê, resolve seguir o ladrão até sua casa. Mas não tem coragem de entregá-lo à polícia ao conhecer a mãe do rapaz, uma costureira refugiada da Bósnia (Juliette Binoche). 'A trama é uma desculpa para abordar a solidão e a incompreensão na sociedade atual, algo que só conseguiremos resolver com um pouco mais de compaixão.'

Spoiler: Depois de várias adaptações literárias de expressão, sentiu certa insegurança ao dirigir uma história de sua autoria?
Anthony Minghella: Nos últimos tempos, a idéia de filmar um material próprio me deixava muito nervoso. Por ter passado cerca de 15 anos filmando histórias dos outros, tinha medo de não ter nada a dizer. Apesar de ter escrito o roteiro das adaptações que fiz, o argumentista se expõe muito mais. Quem não gostasse de meus filmes anteriores podia culpar o autor do livro (risos). Agora não.

Spoiler: Em compensação, agora não ouvirá comparações com a obra original e muito menos as queixas dos fãs do livro, apontando cenas em que a adaptação não é fiel...
Minghella: Isso será uma bênção (risos). Outra vantagem é a total liberdade na hora de criar as cenas, sem precisar buscar o equivalente em termos visuais para cada sentimento descrito pelo autor, numa narrativa mais interna. Sempre existe um peso nos ombros de quem procura passar uma história adiante, enaltecendo as virtudes do original.

Spoiler: A idéia por trás de Invasão de Domicílio é dar uma perspectiva mais humana aos imigrantes, uma classe aparentemente invisível, apesar de sustentar a sociedade londrina?
Minghella: Sim. Até porque Londres não existiria sem eles. Por vir de uma família de imigrantes, sempre procurei celebrar o fato de a sociedade londrina ser um caldeirão cultural, com cores e credos diferentes. Mas me incomoda o fato de dividirmos o mesmo espaço geográfico, sem que todos tenham as mesmas chances.

Spoiler: Ao mesmo tempo, o filme encontra espaço para retratar a incomunicabilidade do casal interpretado por Jude Law e Robin Wright Penn, em cenas que emocionam o espectador ao vê-los desesperados pelo abismo que os separa...
Minghella: Sempre me interessei pela complexidade das relações humanas, mesmo quando a trama era ambientada num grande momento histórico. Foi assim que nasceu a minha paixão pelo cinema, ao ver filmes que abrangem o macrocosmo, mas sem tirar o foco do nosso interior, daquilo que nos define como humanos.

Spoiler: O fato de Invasão de Domicílio ter sido ignorado no Oscar poderá desmotivá-lo a continuar escrevendo filmes? Seus épicos colecionaram indicações e prêmios (inclusive o Oscar de direção para Minghella, por 'O Paciente Inglês').
Minghella: Todo diretor quer ver seu filme reconhecido. Mas confesso que me cansei das complicações logísticas das grandes produções épicas. Também perdi interesse no passado. Quero entender melhor o momento incrível e perturbador que vivemos hoje. Não quero olhar para trás, daqui muitos anos, e perceber que perdi a chance de analisar a minha época.

Por Elaine Guerini - Estado de São Paulo


27.4.07

Miss Potter investiga processo criativo


Chris Noonan - você sabe quem é, embora talvez fique em dúvida quanto ao nome. O diretor australiano ganhou projeção internacional quando sua fantasia sobre o porquinho Babe lhe valeu duas indicações pessoais para o Oscar em 1995. Babe concorreu a melhor filme, mas também a direção e roteiro, estabelecendo a reputação de Noonan como cineasta voltado ao imaginário infanto-juvenil. Numa entrevista por telefone desde a Austrália, com 13 horas de diferença - era tarde da noite no Brasil, de manhã em Sydney -, ele conta que queria voltar a trabalhar este universo, mas sem se repetir. A história de Beatrix Potter, autora de um clássico infantil de língua inglesa, The Life of Peter Rabbit, forneceu-lhe a ferramenta de que necessitava. Miss Potter era um filme para Cate Blanchett. 'Nosso roteiro foi construído em função dela, embora Cate seja uma atriz que não necessita de adaptações. Pode fazer qualquer coisa. Mas houve um problema de cronograma na agenda dela e Cate teve de abrir mão do projeto. Ficamos sem atriz, e não uma atriz qualquer. Cate era um atrativo seguro para os investidores. Só que, a esta altura, eu estava tão seduzido por Miss Potter que faria qualquer coisa para contar sua história. Renée Zellweger surgiu como uma alternativa. Ela própria estava interessada. Foi uma comunhão de interesses.'

Noonan não teve medo de entregar o papel à intérprete de Bridget Jones? Afinal, mesmo em seu melhores momentos, Renée tem uma tendência ao histrionismo, a fazer caras e bocas e isso poderia ser prejudicial numa história minimalista, em que a personagem exercita a imaginação, mas não faz quase nada. 'Nada é tudo', responde Noonan. E não - ele não teve medo de fazer de Renée Zellweger a sua Miss Potter. 'Sabia que Renée estava disposta a fazer o papel e era o mais importante. Ela queria servir à personagem, não servir-se dela. Foi emocionante ver Miss Potter crescer e ganhar vida por meio de Renée.'

Miss Potter trata do universo infantil, mas não é propriamente para crianças. O filme investiga o processo criativo de uma mulher adiante de seu tempo. Beatrix é esta moça bem-nascida que, desde menina, supre suas carências desenhando essas histórias de bichos. A mãe subestima o talento da filha e acha que ela deveria estar pensando em outra coisa - em arranjar um marido, por exemplo, porque naquela sociedade conservadora uma mulher se afirma socialmente pelo casamento. O pai é quem dá força ao talento da filha. Beatrix arranja um editor dedicado (Ewan McGregor), que vai ser também seu amor, mas a vida lhe reserva surpresas. O curioso é justamente isso. Quando for contar a história, o espectador vai ver que ocorre muita coisa com Beatrix, mas o tom do filme consiste em diminuir, diminuir, como se não ocorresse nada.

'A história de Beatrix e sua obra são tão delicadas que não havia por que transformá-la numa personagem maior que a vida. O bonito é justamente essa contenção, esse pudor com que ela vive sua arte, o amor.' Estruturalmente, o maior dos infortúnios que ocorre à personagem parece lançá-la numa vida de solidão, mas aí ela faz, quase por acaso, a descoberta de que a felicidade esteve sempre próxima. É uma influência de Thomas Hardy? Beatrix Potter parece repetir a experiência de Betshaba em Longe Deste Insensato Mundo, que John Schlesinger filmou com Julie Christie, no fim dos anos 60. 'Você acha?', pergunta Noonan. 'Pode ser, se estivéssemos trabalhando com pura ficção, mas a verdade é que as coisas ocorreram assim.'

Uma vida discreta - exatamente o oposto da vida extravagante de outra escritora, retratada por François Ozon em seu longa Angel, exibido no Festival de Berlim, em fevereiro. Noonan não viu o filme de Ozon, nem sabia de sua existência. Suas escolas estéticas são diferentes, de qualquer maneira. É estimulante ver como Noonan trabalha o tema da imaginação de Beatrix. Ela ganha vida na tela, por meio de animações, quando os bichos saltam do papel. 'Nossa primeira idéia foi quebrar o relato, inserindo as animações, mas aí achei que estaria repetindo Babe e era tudo o que não queria. Cheguei à conclusão de que as animações também deveriam ser discretas, delicadas. Foi assim que trabalhamos.' Qual é a expectativa de público do diretor? 'Você quer saber se estou trabalhando com um possível estouro, como o de Babe? Não acredito. O perfil do filme é outro, mas também não estou preocupado. Se a gente for pensar só em bilheteria termina não fazendo o que quer.'

Seu próximo filme vai se basear, de novo, numa história real. Noonan escreve, atualmente o roteiro, processo que é sempre demorado para ele. No começo dos anos 80, na África do Sul dividida pelo apartheid, causou grande rebuliço a iniciativa de uma escola que formou um time misto de futebol. O filme vai se chamar Zebras. Eles eram a zebra do campeonato e o próprio time era zebrado, por seu caráter birracial. Noonan está entusiasmado. 'Desde que descobri essa história, ela me persegue. Foi há apenas 25 anos, o tempo de uma geração. A gente pode criticar muita coisa no mundo atual, mas houve um avanço grande e é sobre isso que quero falar.' O avanço também marca a história de Beatrix Potter. 'Sem dúvida. Era o mais atraente. Uma mulher que faz uma revolução, sem revolução.'

Por Luis Carlos Merten - Estado de São Paulo


18.3.07

Livre de clichês e didatismo inútil, "Maria Antonieta" não merece a guilhotina


Talvez vivamos um momento de exacerbação antiintelectual, ao menos no cinema. Durante uma sessão de imprensa de "Maria Antonieta", por exemplo, era possível escutar bocejos e suspiros desconsolados diante desse filme em que nada de emocionante acontecia.

Nada acontecia, ou, dizendo melhor: não havia perseguições ou correrias, heróis ou vilões facilmente identificáveis. A futura rainha da França não é tratada puerilmente como uma imbecil, nem como uma pobre vítima. Sofia Coppola trata Maria Antonieta como uma pessoa, não uma personagem da clicheria cinematográfica que freqüentamos quase todo dia -sobretudo a dos independentes. Sim, porque não há cinema mais submisso às convenções do que o indie americano.

Sofia Coppola desponta hoje como uma autora de verdade, o que é quase uma anomalia. Não é autora do tipo que coloca a expressão "um filme de" antes de qualquer impessoalidade que se faça. Suas preocupações parecem constantes. Assim, sua Maria Antonieta é, no início, uma mulher dominada, controlada por outros, parecida com as irmãs de "As Virgens Suicidas", filme que a revelou. Na condição de princesa austríaca, é prometida, ainda adolescente, ao delfim da França, Luís Augusto, futuro Luís 16, a fim de aproximar os dois países.

Um destino nada extraordinário para a nobreza do fim do século 18, quando se passa o filme. Mas assim era, e Sofia Coppola o nota: a alienação essencial da mulher a preocupa.

Em seguida, Maria Antonieta cruza a fronteira e se torna submissa, primeiro, à complexa etiqueta da corte; depois, aos (não) desejos de um marido mais atraído pelas caçadas do que por ela. É então a mulher no estrangeiro, como a de "Encontros e Desencontros", às voltas com signos indecifráveis.

O movimento seguinte nos traz uma jovem que se familiariza com os costumes da corte e coleciona sapatos e vestidos. Não terá respondido com a frase famosa ("Se não têm pão, comam brioche") ao povo que se rebelava, mas pouco importa: sua frivolidade é digna dela.

Nem por isso Sofia inicia o processo da rainha. Assim é a corte. O interesse do filme desloca-se da rainha para Luís 16, que, afinal, é o senhor de seu destino. E Luís é um rei-desastre. Se Luís 14, outro jovem monarca que chegou ao poder cercado de desconfiança, submeteu a nobreza pelo espetáculo da corte, Luís 16 apenas repete, como um diretor de cinema acadêmico, os rituais de poder: segue a ritualística, mas é vazio.

E, desse vazio, será vítima. "Maria Antonieta" é um filme que recusa emoções baratas e o didatismo inútil. Retoma as preocupações que Sofia já demonstrara a respeito da alienação da mulher, sem fazer demagogia com o pescoço da trágica rainha. Embora Kirsten Dunst não seja uma atriz profunda o bastante para representar esse papel tão terrivelmente superficial, "Maria Antonieta" está longe de merecer a guilhotina a que, tão depressa, a indústria do espetáculo quis condená-lo.

Por Inácio Araujo


31.10.06

SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

"Mary" propõe um inquietante contraste entre a crença e o ego


Cineasta de carreira controversa e de altos e baixos, o nova-iorquino Abel Ferrara retorna às telas - e ao seu melhor cinema -, depois de quatro anos de ausência. No longa-metragem Mary (2005), ele retoma seu tema favorito, a fé, propondo um inquietante contraste entre a crença e o ego.

Educado severamente dentro do catolicismo, Ferrara reflete em sua cinematografia uma curiosa e ambígua relação com a crença, quase uma obsessão. Em tempos em que a fé católica impulsiona produtos pop mundo afora, ele não poderia abster-se e oferece aqui sua visão a respeito do tema.

Nitidamente incomodado, ele abre Mary com o encerramento das filmagens de um longa sobre Maria Madalena. Rodado por um cineasta megalomaníaco (Mathew Modine), o filme "Este é o meu sangue" mostra a personagem bíblica sobre uma nova luz - não a de prostituta da Igreja, não à de esposa/amante da recente ficção medíocre, mas a de importante apóstolo de Cristo, idéia extraída de textos apócrifos. O tal diretor, porém, está muito mais preocupado com sua imagem e em criar polêmica, algo que vai ajudá-lo a vender o filme, numa claríssima referência a Mel Gibson (A Paixão de Cristo). Parte dessa estratégia foi o tratamento de seu elenco, exigindo tanto de seus atores que a protagonista do filme, Marie (a brilhante Juliette Binoche), torna-se incapaz de abandonar sua personagem, partindo numa jornada espiritual. Passa-se um ano até que o longa fique pronto e a trama acompanha então um cético jornalista televisivo (Forrest Withaker, fulminante), dono de um programa diário sobre fé, que tem como objetivo principal uma entrevista com o egocêntrico cineasta.

Ferrara brinca com a fé de forma desconcertante e irônica. Uma desgraça pessoal, por exemplo, faz com que um dos personagens volte-se a Deus em busca de auxílio. Mas não seria o mesmo Deus que lhe trouxe a desgraça? Outros, devotados e iluminados, sofrem na mesma proporção. Escancara-se então o moto -contínuo religioso a respeito do qual o diretor é tão interessado.

Surpreende também a maneira com que Ferrara registra tudo isso. As sombras marcadas, os tons quentes, os movimentos de câmera e a música pungente parecem os mesmos habitualmente empregados em filmes de terror. A maneira como o diretor focaliza uma estátua de Cristo na cruz é aterrorizante. Não fosse Mary um drama, haveria a certeza de que a imagem se moveria.

Um filme com potencial para incitar debates, portanto. Discussões relevantes, que mereciam espaço muito maior em nossa cultura que as iniciadas por "Códigos" e "Paixões" diversos.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Mary" aqui!
    Por Érico Borgo - Omelete


  • 29.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Teerã Não Tem Mais Romãs" cria juízo de valores de maneira artificial


    A maior oportunidade que esse documentário poderia oferecer a quem se arriscar a assistí-lo foi jogada no lixo por brincadeirinha boba do diretor e pela sua preferência em não assumir seu filme como obra documental - mas também não o aceita como obra puramente ficcional ou mesmo como um filme; portanto o que temos é um não-filme, um não-documentário, uma não-ficção.

    O diretor Massoud Bakhshi teve nas mãos importantíssimos documentários visuais da cidade de Teerã em tempos antigos, desde o início do cinema até tempos mais recentes e de importantíssima movimentação histórica. Diz, em seu prólogo, que tentava recursos para realizar um documentário sobre a misteriosa capital do Irã, mas que, por problemas no decorrer dos preparativos, por falta de real apoio das autoridades e, com certeza por qualquer tipo de bom senso ou maturidade, talvez tivesse que deixar tal empreitada para uma outra oportunidade e nos "presenteou" com uma miséria de idéias assombrosa.

    Atrasado no tempo, revelou-se um aficcionado pelo estilo criado por "Ilha das Flores", o já "ancestral" curta-metragem de Jorge Furtado, recriando em seu trabalho (?), o mesmo estilo ligeiro, de informações que tentam angariar simpatia por suas colocações óbvias em tom de verdades imprescindíveis, apropriadíssimo para quem tentou ficar encima do muro sobre o que iria entregar pronto para o público. Acontece que o curta brasileiro tinha valor, por enveredar - apesar das brincadeiras e do tom irônico - em busca de informações verdadeiras e chocantes (apesar da manipulação visual obtida com enxerto de imagens que não condiziam à realidade do local retratado); já no caso de "Teerã Não Tem Mais Romãs", todo esse tipo de artificialismo é utilizado para criar juízo de valores - quanto ao comportamento e os desejos da população local - ou ridicularizar políticos, ao melhor (ou pior) estilo Michael Moore, que foram captados com sorrisos e poses maldosamente aproveitadas, e das quais não tiveram a oportunidade da defesa - longe defender os políticos da cidade, o que fica, de verdade, é a óbvia manipulação de situações, por parte do diretor, para contextualizá-las ao próprio gosto (como disse, bem ao estilo do escandaloso documentarista norte-americano).

    As grandes cenas do passado são bonitas, mas estão nitidamente a serviço do ego de um diretor que não teve a coragem de assumir sua obra como trabalho para auto-satisfação, com seu humor de mau gosto e sua tentativa de manipulação por trás de véus de falsa inocência; tudo isso amparado por um estilo de montagem que já faz parte do passado.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Teerã Não Tem Mais Romãs" aqui!
    Por Cid Nader - Cinequanon.art.br


  • 28.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Time" fala de pessoas insatisfeitas consigo mesmas


    O diretor coreano mais conhecido no ocidente ¿ o que não quer dizer que seja o melhor ou o mais original, apenas o que consegue maior aceitação por parte do público e também dos distribuidores e dos curadores dos grandes festivais - parece ter recobrado um pouco a consciência, após o atentado à inteligência e ao bom senso com que ele danificou sua carreira: "O Arco".

    Realmente há de se considerar que ele não angaria a simpatia ou compreensão de parte da crítica desde sempre, o que faz com que alguns indiquem o filme "O Arco" como uma continuação natural de uma carreira desastrosa e enganadora. Não me estenderei, no momento, a respeito dessa controvérsia de opiniões, mas deixo claro que mantinha o diretor em alta estima até bem pouco tempo - dúvidas surgiram com Primavera, Verão..., e um terror se abateu sobre minha cabeça com a produção citada acima.

    Temos agora à mão uma nova possibilidade de avaliar e tentar definir com mais segurança o diretor: Time. Temos? Mais ou menos. Kim Ki-Duk retoma muitas de suas repetições, estilos e símbolos nesse filme. Estão lá o conflito eterno - embora não ostensivo ou aparente - que faz da coreana uma civilização à parte quando comparada às outras da região, com seu comportamento anormalmente agressivo e expansivo em contraste com momentos de serenidade zen (país de formação cristã e budista é uma boa tentativa de explicação); o estilo de montagem com algumas pequenas elipses - trata o tempo de maneira particular -; o amor num eterno processo de tortura mesclado ao prazer e resoluções inusitadas se observadas por padrões "comuns" de compreensão. É mais ou menos isso. Time nos traz um diretor que se repete mas que tem algo a dizer.

    Time fala de pessoas insatisfeitas consigo mesmas e, conseqüentemente, com sua relação amorosa, encontrando como possível solução para tais dilemas a transformação física, que traz a reboque, evidentemente, toda uma reestruturação psicológica ¿ como se realmente acreditassem na sua transformação em outra pessoa. Evidencia as reações extremadas ¿ explosões temperamentais, ciúme doentio e sem razão e a agressividade física de seus personagens, que se comportam durante todo o filme como dispostos, a qualquer momento, a cometer um suicídio ou um assassinato, por amor. E cria momentos de ações, que se aproximam de um modo budista de observar, de cercar, de não aparecer, mas com evidentes dicas de que alguma presença está de soslaio ¿ momentos em que o filme quase se veste de aura espiritual.

    É um filme que se aproxima mais, do que eu imaginava de Ki-Duk há um tempo atrás... mas um certo mal já está feito e uma desconfiança danada continua a me rondar; o suficiente para não apreciá-lo como grande trabalho.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Time" aqui!
    Por Cid Nader - Cinequanon.art.br


  • 27.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Ausência de Deneuve atrapalha criação de obra-prima em "Belle Toujours - Sempre Bela"


    É uma lástima que Catherine Deneuve tenha recusado voltar ao papel da bela Séverine de "Bela da Tarde": a idéia de retomar o clássico personagem criado para o filme de Luis Buñuel 40 anos depois era um achado. E o desenvolvimento que deu aos personagens, exemplar.

    "Belle Toujours - Sempre Bela" seria uma obra-prima, caso não faltasse ali, justamente, Deneuve. Porque no cinema certas personagens são indissociáveis de seus criadores. Não existe Séverine sem Deneuve, assim como não existiria Michael Corleone sem Al Pacino.

    O que restou, e não é pouco, é a idéia de Oliveira, de promover o reencontro da Bela com o sr. Husson. No caso de Husson, Michel Piccoli retoma o papel, o que é bem importante. Ele era talvez o mais pervertido dos freqüentadores do bordel onde a Bela pontificava, e com toda certeza aquele que mais tensão criava, já que era amigo do marido de Séverine.

    Husson a vê durante um concerto, mas não consegue entrar em contato com a mulher. A partir daí temos contato com esse homem hoje idoso e solitário, mas incontestavelmente feliz por ter vivido aquela estranha aventura com uma mulher invulgar.
    Invulgarmente perversa, como ele bem explica ao barman a quem desabafa ou às prostitutas que encontra, que lhe parecem amadoras perto da Bela da Tarde.

    O problema é que ele acaba por encontrá-la, e ela aceita marcar um encontro, onde Husson julga que saberá o que foi feito daquela mulher, hoje aparentemente muito rica.

    Mais, julga que enfim conseguirá entender o mistério de uma mulher que amava seu marido enormemente, mas de uma maneira sadomasoquista que a levava a entregar-se a outros homens.

    À parte a decepção que é vermos Bulle Ogier num papel destinado a Catherine Deneuve (por quem? pelos céus, talvez), podemos desfrutar da solução de Oliveira para o mistério Séverine, que aliás não se dissipará -até pelo contrário.

    Quanto a Deneuve, só se pode lamentar: impediu que uma obra de modo magnífica se tornasse obra-prima acabada e impediu-se o privilégio de dar um fecho de ouro para um dos personagens mais fascinantes que já se pôde ver numa tela de cinema.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Belle Toujours - Sempre Bela" aqui!
    Por Inácio Araujo - Folha de São Paulo


  • 25.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Com futebol, Panahi volta a focar Irã feminino com "Fora do Jogo"


    Jafar Panahi já havia submergido no universo feminino no espetacular "O Círculo", exibido na Mostra de 2000. Com "Fora do Jogo", volta a abordar as restrições que regem a vida das mulheres em seu Irã natal -que, embora seja um dos países mais intelectualmente sofisticados do Oriente Médio, experimenta um retrocesso de costumes evidenciado com a chegada de Mahmoud Ahmadinejad à Presidência em 2005.

    Alegoria inusitada, o cenário escolhido para levantar questões sobre a falta de liberdade das mulheres é um jogo de futebol -a partida contra o Bahrein que classificou o Irã para a Copa da Alemanha deste ano.

    Num país onde o esporte é adorado por todos mas só neste ano as mulheres obtiveram permissão para assistir aos treinos (nos jogos elas ainda são vetadas), um grupo de meninas é detido após tentar entrar vestido de homens no estádio e passa a partida crucial num cercadinho, sob guarda de policiais que mal sabem o motivo de tantas proibições. "Nos jogos gritam muitos palavrões.

    Vocês não podem ouvir palavrões", arrisca um deles às incrédulas torcedoras fanáticas. Restringindo a ação quase toda ao estádio e usando o humor para enfileirar perguntas, Panahi fez um filme mais leve -e menos contundente- do que "O Círculo". Mas tem o mérito de se comunicar facilmente com o público -algo pouco corrente na filmografia de seu país- e de se firmar, com suas cenas cotidianas e seus personagens quase prosaicos, como um cronista essencial da paradoxal sociedade iraniana.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Fora do Jogo" aqui!
    Por Luciana Coelho - Folha de São Paulo


  • 24.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Luzes na Escuridão" aborda a solidão de uma maneira intimista


    O cineasta finlandês Aki Kaurismaki não é conhecido do grande público, mas seus filmes costumam freqüentar Festivais e Mostras. Seu cinema autoral tem como característica o humor sem expressão, irônico e com um tom absurdo. Seu novo projeto nessa linha, Luzes na escuridão (Laitakaupungin valot, 2006), marca o fim da trilogia urbana do homem perdedor, iniciada por Drifting clouds (1996) e O homem sem passado (2002).

    O protagonista da vez é Koistinen (Janne Hyytiäinen), um homem solitário, que trabalha como guarda noturno em um shopping center de Helsinki. Ele tem pouquíssimos amigos, e, mesmo com eles, trava uma relação desconfiada. Koistinen é um homem tão esquecível, que seu chefe continua perguntando seu nome mesmo sendo empregado da empresa há três anos. Certo dia, quem cruza seu caminho é Mirja (Maria Jarvenhelmi), e a paixão é imediata. Mas uma quadrilha de gângsteres se aproveita de sua paixão por ela e de sua posição como vigilante para tramar um assalto a uma joalheria do shopping.

    O filme foi visivelmente inspirado no cinema noir dos anos 40. Até o estilo de edição é o mesmo, embora Kaurismaki imprima o seu próprio ritmo. Todos os personagens se movem vagarosamente, enquanto a cidade de Helsinki parece estar isolada e coberta por um silencio extremo. Não há pessoas esbaforidas, trânsito ou vizinhos barulhentos. Só o grupo de gângsteres e alguns outros personagens que casualmente se envolvem na trama.

    O que faz do filme uma pequena obra-prima é a maneira contida como tudo acontece - um brilhante exemplo de como o menos significa mais. Mesmo nos momentos mais hilários e patéticos protagonizados por Koistinen não acontece nenhum tipo de alteração do ritmo do filme. Ninguém sorri ou esboça uma reação. Parecem fotogramas ambulantes, dando uma idéia de uma história em quadrinhos que vai sendo contada página a página. O único personagem que esboça alguma emoção é Aila (Maria Heiskanen), uma mulher que tem um daqueles trailers que vende comida. Percebemos que ela gosta de Koistinen. Mas nem mesmo ela consegue expressar seus sentimentos.

    Os diálogos são rígidos e não deixam espaço para a inflexão verbal. Mas não ache que o filme seja frio. Mesmo com os atores parecendo estátuas, a narrativa é envolta de um calor brilhante.

    Os cenários também são fenomenais. Os elementos de cena surgem na tela de forma harmônica e arrumada. Helsinki é apresentada como uma cidade industrial. O apartamento de Koistinen é escuro e quase sem mobília, mas suas paredes são pintadas de forma exuberante para ridicularizar ainda mais seu ocupante. Tudo é extremamente colorido.

    E diferente do trabalho anterior de Kaurismaki, o humor aqui é menos explicito. Mas seu estilo está lá mais uma vez e não é para qualquer um. A cena final pode deixar o público meio atônito, mas no rígido universo do diretor, um simples gesto de dar as mãos tem um significado singular.

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    Por Mario Abbade - Omelete


  • 23.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "100 Escovadas antes de Dormir" é psicanálise de botequim


    A nova picaretagem para se ganhar dinheiro fácil é escrever um livro sobre a sua vida sexual quando adolescente. Principalmente se aos 14 anos você tenha sido um praticante assíduo de orgias e coisas do tipo. O público parece ter uma acentuada curiosidade pelo assunto. A cada seis meses surge um novo livro com o tema, que conseqüentemente acaba chegando à telona.

    "100 Escovadas antes de Dormir" é mais um desses casos absurdos de sucesso. A produção foi baseada no livro homônimo, que conta as aventuras sexuais e eróticas da adolescente siciliana Melissa Panarello. O livro foi um best-seller na Itália e em muitos dos trinta países onde foi lançado. O sucesso é conseqüência do forte teor sexual envolvendo uma menina. Muitos ficam impressionados, mas se esquecem que a verdadeira comoção é saber que garotas de oito anos das regiões norte e nordeste brasileiro fazem pior que as estripulias contadas no livro por um prato de comida, como foi recentemente mostrado em Anjos do Sol (2006).

    Polêmicas à parte, no filme, Melissa (Maria Valverde) é uma virgem adolescente de 15 anos. Seu pai trabalha fora, em uma torre de perfuração de petróleo. Sua mãe (Fabrizia Sacchi) é uma dona de casa que não tem a menor idéia das transformações enfrentadas pela sua filha. A única que parece se importar com ela é sua avó (Geraldine Chaplin), cuja idade avançada acaba lhe rendendo a internação em um asilo. Assim, Melissa acaba perdendo a única pessoa com quem se sentia segura para conversar. Tudo isso bem na delicada fase das descobertas sexuais.

    A grande paixão da menina é Daniele (Primo Reggiani), o garoto mais atraente e rico da escola. No final das férias de verão, ele a leva para trás de sua piscina e consegue de Melissa uma sessão de sexo oral. Na cena percebe-se que ele não sente nada por ela, e a utiliza apenas como um instrumento de alivio sexual. A cena é humilhante para a garota, mas ela está tão embevecida, que acredita numa paixão nascente. Em uma aula de educação física, ela chega a ter um orgasmo pensando nele.

    Daniele se aproveita dessa paixão e resolve tirar-lhe a virgindade. A cena de sexo entre os dois é ainda mais humilhante para Melissa. Daniele ainda convida seu amigo Arnaldo (Elio Germano) para mais uma rodada de sexo com Melissa dias depois. Quando finalmente percebe que está sendo usada, ela se revolta e decide dar uma lição em Daniele: ela irá transar muito mais que ele! Irá devotar sua vida ao sexo e começa a escrever essas experiências em um diário. Inicia-se assim uma viagem regada a sexo com homens, mulheres, homens mais velhos, sadomasoquismo e até orgias.

    Segundo o livro/diário, todas as experiências aconteceram. É um verdadeiro fetiche para os homens. Para as mulheres, um tratado feminista que defende o desejo e o direito de se ter diversos parceiros e experimentos sexuais. Infelizmente, o diretor Luca Guadagnino não conseguiu transportar essa essência para o filme. A mudança de comportamento de Melissa acontece sem credibilidade e sem substância. Se no livro percebíamos um questionamento sobre a vida e o contato com as dúvidas e descobertas de uma adolescente, no filme tudo é representado de forma pueril. Nem a polêmica das diversas relações sexuais abordadas no livro provoca alguma reação.

    E nada é mostrado, com exceção de algumas parcas cenas mostrando os seios da jovem. Não que o nu fosse importante, mas o motivo do sucesso do livro foi justamente a maneira como o sexo nada convencional foi descrito. Já o filme parece ter sido produzido pela Disney, tamanha a sua inocência. Guadagnino conseguiu destruir todas as fantasias criadas nas mentes dos leitores. Nada é feito com paixão. São cenas e mais cenas robotizadas. Todo o elenco parece estar seguindo a bula de algum remédio, tamanha a frieza em cena. A única coisa que funciona é a narração, que acaba sendo uma versão falada do livro. Mas para isso já existem os audio-books.

    Nem a própria Melissa, autora e protagonista na vida real das peripécias sexuais retratadas aprovou o filme. "Eu estou tentando esquecer que sou a autora do livro que inspirou o filme. Não tem nada a ver comigo, especialmente as mensagens de psicologia pop", disse ela. Realmente o filme investe em uma psicanálise de botequim, em que tenta explicar o comportamento atípico de Melissa por causa da ausência do pai e o descaso da mãe. Concluímos que ela cresce desprovida de amor e regras de conduta impostas pela sociedade. Mas a própria narrativa sabota essa teoria ao final do filme, gerando um produto esquizofrênico. Provavelmente Freud iria se divertir mais analisando o diretor Luca Guadagnino do que a própria Melissa. Agora, resta aguardar o filme sobre o livro da Bruna Surfistinha. Já que é para mostrar sacanagem, nada melhor que o Brasil.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "100 Escovadas antes de Dormir" aqui!
    Por Mario Abbade - Omelete


  • 22.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Red Road" seduz por nos fazer sentir como transgressores


    O público exerce seu poder à mão-de-ferro e os produtores moldam e deformam os filmes ao gosto do freguês. O público demanda os ângulos, as palavras no roteiro, o tema, o tipo físico dos protagonistas. O público devolve como exigência o mesmo estilo que lhe foi imposto para consumo. Edgar Morin idealiza uma participação afetiva exacerbada pela impotência ativa que o espectador, rendido por aquilo que é uma mera ilusão de ótica no escuro, é refém. Morin não foi assistir a "Shrek 2" no Iguatemi Shopping 3.

    É esse espectador que não se conforma em ser refém das imagens projetadas que "Red Road" aborda. Cartão de visitas do projeto "The Advance Party" orientado por Lars Von Trier, onde três diretores utilizaram os mesmos personagens interpretados pelos mesmos atores para realizarem cada um o seu próprio filme durante seis semanas em Glasgow, Escócia (os personagens foram criados pelos onipresentes Anders Thomas Jensen e Lone Scherfin), "Red Road" é um atmosférico thriller em que roteiro e imagens estão embebidos em sensualidade. No entanto, ao vê-lo pelo prisma do espectador mutado em protagonista ativo das imagens que apaixonam, "Red Road" acaba relembrando "Asas do Desejo".

    Temos como protagonista a operadora de câmeras de vigilância urbana PJ Harvey (Kate Dickie), após fracasso na carreira musical. Ela cria familiaridade com a rotina de alguns anônimos que flagra. Ela é seduzida a vê-los de perto, mas sem interferir. A rotina dos protagonistas é fraternalizada pela rotina da espectadora. Ela escolhe o que vê, a quem enquadrar. Até o dia em que enquadra Clyde Henderson (Tony Curran), criminoso pelo qual nutre uma estranha atração, andando solto pelas ruas e habitando o condomínio que batiza o filme. É quando o contrato entre o público e a protagonista é quebrado. Deixamos de ver quem está vendo o quê. Estamos muito mais ligados ao possível vilão; a protagonista nos engana, esconde informações. Ela parte para frente das câmeras de vigilância, sabe que está sendo vista a todo o momento, consciente de que você a vê. Isso não a impede de agir como lhe convier, de agir de modo repreensível. Claro, ela é a PJ Harvey.

    O que faz de "Red Road" um ótimo filme, ainda que um tanto longo, é sua reviravolta que transforma todo o seu universo. É como se "Red Road" cedesse sob o peso da revelação de seu mistério e fosse obrigado a se reformular por inteiro. Seu gênero se altera, o caráter dos personagens se alteram. Um thriller que não suporta mais sê-lo. Fotografado de forma espetacular (a Escócia do filme parece em eterna alvorada ou anoitecer), "Red Road" seduz por nos fazer sentir como transgressores. O perigo é erótico. Ainda mais, o filme conta com essa espetacular cena de sexo que me deixou cruzando as pernas e tudo o mais, de deixar o espectador perguntando se tem lugar para mais um.

    A atmosfera de aventura de fim-de-semana que ecoa pelo resto do mês é o fator de maior empatia em "Red Road". De sermos conduzidos para um walk on the wild side, de cedermos o controle. Perder o controle e magicamente encontrar aquela necessidade intangível. Deixar-se seduzir. Existe uma moral, é o método da protagonista, mas o que permanece é permitir-nos a inconseqüência.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Red Road" aqui!
    Por Bernardo Krivochein - Zeta Filmes


  • 21.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Infância Roubada" denuncia as mazelas da África em voz alta


    O ambiente urbano, o lado sujo da metrópole, o choque de classes, o rap da trilha sonora... Tudo no início de "Infância Roubada" ("Tsotsi") leva a crer que aquela história ambientada na periferia de Johannesburgo, na África do Sul, poderia se passar em qualquer lugar no mundo - pelo menos em qualquer lugar onde o caos e a violência se tornaram hábito.

    Seria um alívio, diante de tantos outros vencedores do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que exportam exotismo para gringo ver, assistir a uma trama universal. A fórmula de Tsotsi, porém, é mais ardilosa: cutucar no resto do Ocidente o sentimento de culpa pelo abandono da África. E deve ter sido por isso que o diretor Gavin Hood levou o careca dourado da categoria neste 2006.

    Tsotsi é o apelido de um jovem (Presley Chweneyagae) revoltado com a vida. Foi a sua infância que o determinismo social levou. Hoje Tsotsi lidera um quarteto que faz assaltos no metrô e bebe desocupadamente na favela. Um dia, porém, ao fugir de uma briga de bar, ele vai parar na vizinhança endinheirada da cidade. Tenta roubar um carro e acaba atirando na motorista. No banco de trás há um bebê, que no meio do desespero Tsotsi acaba levando consigo.

    Com 20 minutos de filme não precisa ser um gênio para saber como ele vai terminar. Previsibilidade, além das lições de moral, é outro quesito que vale pontos numa premiação que nivela por baixo como o Oscar. Evidente que Tsotsi espelhará no bebê a infância que não teve, e dessa experiência tirará não só o acerto de contas com o passado como a merecida redenção.

    Hood não pega leve - se ele tem uma qualidade é ir no fundo no que propõe - e mostra como a inépcia de Tsotsi coloca em risco o bebê. Os momentos dos dois, a sós, costuma propiciar alívios cômicos em produções mais amenas, mas humor não é a praia de "Infância Roubada". É o tom de gravidade, aliado a relações de causa e efeito das mais brutas, que acompanha a narrativa. Se é para denunciar mazelas, o filme parece dizer, que se denuncie em voz alta.

    Quem aprecia obras mais sofisticadas - não no sentido de afetação, mas de aprimoramento - que não recorrem a soluções dramáticas fáceis, pode se decepcionar (um diretor mais sutil, por exemplo, não verbalizaria a questão do caráter, mas a deixaria implícita). Quem gosta de alimentar pesos na consciência - e não necessariamente expurgá-los, já que sempre há a polícia pronta a lidar com os males que nós não resolvemos como sociedade - terá um filme-panfleto completo.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Infância Roubada" aqui!
    Por Marcelo Hessel - Omelete


  • 20.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    Aïnouz retrata dilemas brasileiros


    Depois de dois anos em São Paulo, Hermila (Hermila Guedes), de 21 anos, volta a Iguatu, no sertão do Ceará, com o filhinho no colo. Instala-se na casa da avó (Zezita Matos) e fica à espera do marido, também jovem, que deve vir de São Paulo para instalar na cidadezinha uma barraca de gravação de CDs.

    Mas, se a protagonista se chama Hermila, por que o título do filme é "O Céu de Suely"? Responder a essa pergunta seria contar metade da história.

    Basta dizer que Hermila é uma moça dividida entre os laços afetivos, arraigados em Iguatu, e o desejo de ganhar o grande mundo. Um ser entre as raízes e o céu sem limites. Essa tensão permanente entre o local e o global está presente no próprio ambiente -e em cada plano do filme, bem como em sua trilha sonora.

    Já as primeiras imagens e sons sugerem essa dialética: numa textura de filme doméstico, vemos Hermila correndo e dançando feliz num descampado, enquanto ouvimos em "off" seu relato de amor ao marido Mateus, sobreposto à canção "Everything I Own", do Bread, em versão brasileira.

    É uma espécie de clipe brega, mas brega de verdade, não o brega "cult", filtrado e chancelado por Caetano Veloso. Iguatu é isso: um desejo de entrar no mundo globalizado, nem que seja de modo desajeitado e pela porta dos fundos. Poucas vezes o cinema brasileiro retratou de modo tão preciso e sutil, sem discursos explicativos, nossa torta modernidade.

    Assim como não julga seus personagens, Aïnouz não explica e não julga o ambiente em que vivem. Não faz análise, faz síntese -com um frescor altamente salutar num cinema de tradição tão discursiva como o nosso.

    Se em "Madame Satã" a opressão social e racial se estampava no corpo e na alma do protagonista, aqui é o tema do deslocamento, do sonho de um lugar feliz, que se encarna no destino de Hermila.

    Da Lapa carioca de 1940 ao sertão cearense do século 21, do insurrecto negro homossexual à sonhadora interiorana, mudaram o tema e o foco, mas o cinema de Karim Aïnouz continua sendo um jeito delicado, mas vigoroso, de dar a ver a interação entre o indivíduo e sua circunstância.

    E assim como "Satã" revelou para o país o notável Lázaro Ramos, "O Céu de Suely" nos dá Hermila Guedes, atriz de uma vitalidade extraordinária, além de reafirmar o talento de João Miguel (de "Cinema, Aspirinas e Urubus"), aqui no papel de um motoboy de província.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "O Céu de Suely" aqui!
    Por José Geraldo Couto - Folha de São Paulo


  • 3.9.06

    Diretor acerta ao utilizar o realismo para reconstruir uma situação-limite


    O que Paul Greengrass faz é no mínimo desconcertante. Ele aplica na ficção, sem escrúpulo, as técnicas cinematográficas consagradas pelo documentário.

    Desde "Domingo Sangrento", que lhe deu um exagerado e precoce Urso de Ouro em Berlim, seus filmes são marcados pelo uso evidente da câmera na mão, pelas imagens propositalmente tremidas e pela recriação do "tempo real".

    Suas obras acompanham determinado acontecimento de perto, intensamente, com câmera e montagem "estressadas".

    Em "Domingo Sangrento", essa técnica foi aplaudida porque Greengrass trabalhava com a recriação de um fato histórico -o massacre que se seguiu a uma manifestação pelos direitos civis na Irlanda, em 1972-, o que lhe conferia uma suposta autoridade para fazer uso daquelas técnicas. Mas, aí, Greengrass foi chamado para fazer "A Supremacia Bourne", continuação de um filme de ação hollywoodiano radicalmente fantasioso, e recorreu exatamente ao mesmo estilo.

    Greengrass manipula os signos de realidade no cinema para criar uma espécie de "realismo histérico". Mas, quando usa um mesmo registro em filmes tão diferentes -e, mais do que isso, exagera nesses registros-, termina revelando que eles são meras convenções, técnicas de gramática, e não formas mais autênticas de reprodução do real. É verdade que essa é uma desconstrução velada que leva Greengrass a um campo de trabalho perigoso: ao mesmo tempo em que evidencia artifícios, também pode reforçar a confusão entre imagem e real.

    É difícil, porém, negar o domínio pleno que o cineasta alcança em "Vôo United 93". Aqui, seu "realismo histérico" está menos "histérico" e mais interessado em criar uma determinada experiência visual e sonora. Greengrass não recorre a flashbacks, recusa-se a escalar estrelas hollywoodianas e, ao contrário do que induz todo o discurso montado em torno do filme, não está interessado em falar de heróis.

    Ao contrário, "Vôo United 93" fala de homens comuns envolvidos em uma situação fora do comum -tanto os que estavam dentro do avião como os que estava fora, tendo que controlar, com urgência, o caos criado em um mundo que precisa de ordem (o espaço aéreo). Nesse sentido, "Vôo United 93" é de impacto brutal, uma experiência cinematográfica como poucas.

    Por Pedro Butcher (Folha de São Paulo)


    11.8.06

    "A Prova" resolve tema árido com dignidade


    Baseado na peça de David Auburn, premiada com o Pulitzer (que ganhou uma montagem brasileira estrelada por Andréa Beltrão), o filme "A Prova" tinha dois desafios principais a vencer já em sua origem. Primeiro, descolar-se da famosa matriz teatral, firmar-se como obra cinematográfica com personalidade própria. Depois, tornar atraente para um público amplo o universo da matemática, que serve de pano de fundo para a trama.

    São tarefas que o filme cumpre com sobriedade, embora sem brilho, graças à direção segura de John Madden e da atuação precisa de Gwyneth Paltrow, a mesma dupla de "Shakespeare Apaixonado". Porém o grande trunfo do longa é o roteiro de Auburn, que escapa da teatralidade com o uso contínuo de flashbacks e cria diálogos inteligentes em torno dessa ciência.

    Após a morte de Robert (Anthony Hopkins), um brilhante matemático que enlouqueceu no final da vida, sua filha Catherine (Paltrow) tenta provar à sua irmã Claire (Hope Davis) e ao estudante Hal (Jake Gyllenhall) que ela herdou o talento do pai para os números, mas não seu desequilíbrio mental. A questão vem à tona quando Hal descobre uma revolucionária prova de um problema matemático que julga ser obra de Robert, mas que Catherine garante ter sido feita por ela.

    O tema central do filme não é o mundo dos cálculos, mas a delicada fronteira entre genialidade e loucura, o drama de pessoas com um universo interior muito rico, mas que nem sempre conseguem traduzir essa riqueza aos outros, como Robert e Catherine.

    "A Prova" desenvolve com dignidade esse tema árido para os padrões hollywoodianos. Mas o conclui de maneira insatisfatória, recusando um final em aberto e insinuando uma solução romântica. Para um filme sobre pessoas tão originais, seu desfecho é bastante convencional.

    Por Ricadro Calil - Guia da Folha